Sobre jogos e tecnologia

Os jogos sempre receberam tecnologia de ponta a favor da diversão. É uma linguagem que depende da tecnologia para existir. Um filme não precisa, necessariamente, da melhor câmera para ser bom, uma vez que suas maiores qualidades estão contidas na própria linguagem cinematográfica, na atuação de seus atores e na narrativa. Com o passar dos anos ele pôde receber uma melhor qualidade de imagem, câmeras que filmam em 3D etc., mas a regra permanece sempre a mesma: filme bom é aquele que conta uma boa história.

Já os jogos nasceram em plataformas digitais, ao contrário de outras mídias (com exceção da internet). Um jogo bom é aquele que traz as melhores respostas aos comandos realizados pelo jogador; aquele que traz uma mecânica justa e equilibrada; aquele que tem uma dificuldade balanceada; aquele que transfere o jogador para um mundo tão imersivo que ele se sente em uma realidade paralela. Tudo isso demanda tecnologia, afinal, jogo é simulação. Se você precisa de um homem correndo, você terá que criar um. E haja polígonos para esculpi-lo de forma realista, sistemas de física para simular o movimento das roupas e dos fios de cabelo, sistemas de captura de movimentos para dar vida ao, até então, personagem inanimado e linhas de código para associar esses movimentos a comandos de um dispositivo remoto, para que o jogador possa controlá-lo. E isso tudo não chega a corresponder a 1% do processo de desenvolvimento de um jogo.

É claro que os jogos podem ser extremamente simples e mesmo assim interessantes. Títulos independentes como Cave Story, que tecnologicamente não é muito mais avançado que um jogo de Nintendinho 8-bit, são muito bacanas, bem realizados e muitas vezes, merecem tanto ou mais destaque que jogos de grande porte. Mas , de fato, são os títulos de grandes investimentos e que abusam de novas tecnologias que guiam a nossa indústria e definem como serão os paradigmas dos games de hoje e amanhã. A relação entre games e tecnologia é tão forte que não é à toa que os computadores mais caros são vendidos como máquinas para jogos.

Essa dependência pela tecnologia estará refletida na E3 deste ano.  A Nintendo está prestes a revelar o Nintendo 3DS (provavelmente, um nome provisório), o sucessor do atual DS, o console portátil mais vendido da história. E como o 3D estereoscópico (finalmente) caiu no gosto do público, não é de se estranhar que a companhia japonesa esteja investindo em telas capazes de gerar imagens bidimensionais com a sensação natural de profundidade, uma vez que o aparelho não exigirá óculos 3D.

A Sony, por sua vez, já possui a tecnologia 3D há bastante tempo: alguns sortudos jornalistas puderam conferir jogos como Gran Turismo 5 e Wipeout HD no longínquo começo de 2009. Só não lançaram ainda por que ninguém possui TV que suporte a tecnologia.  O PlayStation Move também está quase saindo do forno, e promete ser uma evolução do Wii, com um controle mais preciso e integrado com a câmera Eye Toy.

A Microsoft também traz suas cartas na manga e prepara o Natal, a câmera capaz de captar e rastrear movimentos corporais, voz e expressões faciais e traduzir tudo isso em ações dentro de um jogo ou aplicativo.

Tudo isso promete uma grande revolução não apenas gráfica ou na forma como as pessoas passarão a jogar videogame, mas também em uma revolução de interface. Com esses novos dispositivos, um novo leque de possibilidades de interação se abre. O usuário terá novas maneiras de se comunicar com a máquina, possibilitando novos tipos de experiências - sempre mais envolventes que as atuais.

Os jogos precisam disso, sempre mais. Mais interatividade. Mais realismo. Mais imersão. A diversão é conseqüência de bons jogos, que utilizam bem a tecnologia proposta. A partir do momento que Gears of War revolucionou os jogos de tiro com uma nova mecânica e um visual tecnologicamente sem precedentes, as grandes produtoras passaram a utilizá-lo como referência, para não ficarem para trás. Três anos depois, ele não causa mais tanto impacto, pois já vimos jogos que vão além e abusam de novas tecnologias (ou das mesmas, porém aprimoradas) para melhorar algo que ele apresentou.

Aí entramos num outro aspecto interessante da relação entre jogos e tecnologia. Jogos muitas vezes envelhecem mal, pois tecnologia envelhece. As pessoas compram celulares, iPods e computadores novos mesmo que os antigos estejam funcionando e cumpram exatamente a função que elas precisam. Mas o fato de haver tecnologia nova faz com que aquela, que um dia já foi atraente, pareça velha e ultrapassada. Jogos que se apegam muito à tecnologia estão fadados ao mal envelhecimento - ainda que não ao esquecimento.

Sempre uso um dos meus jogos favoritos como exemplo de bom envelhecimento: Rez. A obra que hoje pertence à Q Entertainment (originalmente era da Sega) é capaz de impressionar e interessar tanto quanto na época em que foi lançado pela primeira vez, há quase 10 anos. Tudo bem que a versão atual (Rez HD) atualiza os gráficos para a alta definição e tem suporte para sistema de som 5.1, mas de resto, trata-se de exatamente o mesmo jogo que me impressionou no passado. Ao se focar em um conceito original, na abstração visual e em uma estética muito singular, Rez conseguiu se tornar imune ao tempo e ao envelhecimento. Por não tentar ser realista, ele não se tornou feio. Por não seguir tendências populares, ele não se tornou ultrapassado. Por não ser clichê, ele não se tornou banal.

O fato de muitos jogos independentes se focarem mais nos conceitos, na estética e na experimentação lhe garantem qualidades e imunidades como estas de Rez. Por mais que a tecnologia envelheça (ou, mais curioso ainda, por mais velha que ela seja), o jogo continua despertando interesse, servindo de inspiração e, em alguns casos, estabelecendo novos paradigmas. Sleep is Death é um destes: um jogo que, aparentemente, parece ter saído dos anos 80. Por trás da interface um pouco rígida e estranha do editor de histórias e do visual de jogos de DOS, um sistema genial e uma ideia inédita para os jogos. Ao fazer algo que nunca foi feito antes, de uma maneira inédita, ele se tornou único – e não há nova tecnologia que tire esse mérito dele.

Existem outras coisas que gostaria de falar, mas fica para um outro artigo. Não gosto de textos muito longos e você provavelmente também não.

  • http://sidescrollcastle.wordpress.com/ Adinan

    Gostei do artigo, embora como jogador retrô eu lamente a idéia de que o avanço da tecnologia melhora os jogos. Acho os jogos antigos mais divertidos porque a limitação da tecnologia na época incentivava a criatividade dos desenvolvedores, que assim faziam verdadeiras obras de arte em forma de jogos simples mas viciantes.

  • http://www.artinfoworks.wordpress.com Art

    Isso de a tecnologia do hardware estar sempre evoluindo muito rápido é mesmo um saco... Em um dia você tem uma super-máquina que roda qualquer jogo, na outra semana sai um jogo que não roda mais na sua máquina.
    Existem muitos jogos graficamente bons hoje em dia, e que usam muitos processos realmente. Mas acho que um jogo fica defasado quando é feito em cima da tecnologia. O contrário é o que faz um bom jogo, quand a tecnologia é usada a favor do jogo. Aí sim temos jogos que duram muito com o tempo, com ótimos conceitos e tudo o mais =]

    Art^^

  • http://www.guibova.com Guilherme Bova

    What's up bitch!

    Baty!

    Olha, estranhamente essa semana eu estava comentando com um amigo que estou jogando games antigos como Zeld Wind Waker e Okami (agora que tenho wii), e este meu amigo disse: "Credo, mas vc não estranha os gráficos toscos?"... e eu respondi que não, mas não soube muito bem dizer o porquê.

    Mas acho que o que o Henrique falou ao citar o Rez é justamente o que sinto por esses jogos. Eles não envelhecem tanto como outros jogos. Diferentemente de quando fui jogar um tal de Gunvalkire tempos atrás... esse sim eu estranhei....

    :)

  • Rodrigo

    Adinan,
    concordo com você as limitações realmente exigiam do desenvolvedor uma criatividade a mais, mas lembre-se, naquela época a tecnologia mesmo "limitada" era de ponta, e isso contribuiu pra criação desses jogos.. Então colocando na perspectiva da época, só temos o que concordar que a tecnologia ajuda e oferece as ferramentas para os jogos serem cada vez melhores. ;)

  • Rodrigo

    A questão é que a tecnologia vai ser sempre uma ferramenta, e a criação dos jogos vai sempre depender da criatividade do desenvolvedor, existem muitos jogos pirotecnicos que são um lixo da mesma forma como existem jogos de atari/Nes/Mega que foram um lixo e não ficaram na memória de ninguém. Colocar a culpa de um problema de produção ou posicionamento de mercado que gerou um jogo ruim na tecnologia é uma desculpa que eu não compro..
    Braços!

  • AS ÚLTIMAS

    1. gamerspeak_100
      GamerSpeak #100
      08/02/2012
    2. gamerspeak_99
      GamerSpeak #99
      08/02/2012
    3. gamerspeak_98
      GamerSpeak #98
      02/02/2012
  • Follow

    TWITTER