A App Store não é a solução

Sabe quando você encontra uma coisa sem querer na internet e pensa "como deixei passar isso antes?". Isso aconteceu comigo hoje; dando uma fuçada nas notícias encontrei esta página de novembro de 2011, com o título "Townshend [Pete Townshend, líder do grupo The Who] queria cortar as bolas do Steve Jobs". Claro que esse título me chamou a atenção, né?

Essa coluna fala sobre uma palestra que Townshend deu para a BBC. Além desse desejo de felicidade e boa saúde para o falecido CEO da Apple (que, na verdade, foi feito em uma entrevista anterior), ele fala sobre como o sistema da Apple não ajuda a encontrar novos talentos.

De acordo com Townshend, uma gravadora fornece os seguintes serviços:

1 - Orientação editorial;
2 - Apoio financeiro;
3 - Tutela criativa;
4 - Fabricação (ou publicação);
5 - Publishing (administração de direitos editoriais);
6 - Conhecimento de mercado;
7 - Venda;
8 - Pagamento de royalties ao artista.

O iTunes apenas cobre os passos 7 e 8. Ou seja, um artista tem que se virar para administrar o resto.

Townshend estava falando apenas do mercado musical, mas tem como alguém com um mínimo de inteligência achar que isso aí não vale também para o mercado de jogos indie? O que moleques saídos da faculdade sabem sobre direitos editoriais e autorais? Ou sobre o que mais vende? E fazer jogos custa muito tempo e muito dinheiro; essas histórias de pessoas que fizeram jogos ficando na frente do laptop duas horas por noite por dois meses enquanto passavam o dia trabalhando no Starbucks e que ganharam porrilhões de dólares em duas horas são muito edificantes, mas é quase mais fácil ganhar na loteria do que conseguir fazer isso.

É muito legal falar que "a App Store, o Android Market e o Steam possibilitam aos artistas indie chegar ao usuário facilmente", e não deixa de ser verdade até certo ponto. Mas o principal problema nisso tudo é: quem fala isso não fala só pra você, fala para todo o mundo. Com isso, milhões de pessoas vão ter a mesma idéia que você. Entre essas pessoas, você vai ter uma porrada de gente que vai fazer uns jogos de merda, o que vai significar que seu jogo - se você tiver o mínimo discernimento de não fazer também um jogo de merda - vai estar nadando num mar de merda. Depois, mesmo que você conseguir se destacar no meio do fedor generalizado, as pessoas vão comparar o seu trabalho com Angry Birds, Tetris, Plants vs. Zombies, Peggle...

Para a Apple, a Google e a Valve, é o melhor trabalho do mundo; botar uma infra-estrutura, deixar o pessoal brigar pelos caraminguás e depois cobrar comissão. Bem, notícias frescas: os Beatles só foram o maior e mais lucrativo grupo de todos os tempos porque a EMI colocou à disposição deles uma estrutura e um produtor, que os ajudou a eliminar as arestas e fazer os produtos redondinhos que todos conhecemos. Não acho que eles conseguissem chegar onde chegaram gravando em um estúdio alugado e botando o MP3 de "Love Me Do" no iTunes, entre Justin Bieber e os Black Keys.

Aí a idéia de Townshend faz um sentido tremendo. Se essas empresas enchem o rabo de grana com esse pessoal, por que não ajudá-los a florescer? Por que não virar gravadoras - ou, no caso de jogos, publishers? Colocar gente na internet para descobrir novos talentos, botar uma estrutura por trás, pagar os gastos e fazer publicidade desse pessoal. Quem garante que o novo Miyamoto não está agora mesmo em Itaquera fazendo um joguinho vagabundo em Flash?

  • http://twitter.com/evandrof Evandro de Freitas

    O tom da coluna ficou parecendo tentativa de polemizar. Mas vamos lá, Apple, Google, Valve ou quem quer que seja jamais iriam disponibilizar estrutura pra galera distribuir jogos sem cobrar o que cobram. Sim, existe muita porcaria sendo feita e é preciso separar o joio do trigo, porém o "modelo" atual de distribuição é bastante interessante tanto para quem desenvolve quanto para quem consome.

    Existem sim casos onde uma equipe pequena programou um jogo ótimo e ganharam bastante dinheiro com isso. Bastion, Braid, To The Moon, Super Meat Boy... os exemplos são muitos.

    Não vejo onde a existência de publishers vá melhorar no processo. Se o cara faz um jogo bom pronto, ele vai se destacar onde quer que seja distribuido e ELE vai ganhar por esse trabalho. Acredito também que a % cobrada pelo trabalho de uma publisher é mais alta do que o que esses serviços de distribuição cobram.

    uma dúvida, nesse trecho aqui "Depois, mesmo que você conseguir se destacar no meio do fedor
    generalizado, as pessoas vão comparar o seu trabalho com Angry Birds,
    Tetris, Plants vs. Zombies, Peggle..." Tu quis MESMO dizer que esses jogos são ruins? Se sim pqp, me dá ai exemplos de jogos bons por favor.

    No mais é legal ver o Gamerview levantando questionamentos sobre o mercado e tal. Isso estimula a galera a discutir. =D

  • Jose Gildo De Lemos

    Não acho que essas empresas grandes são grandes salvadoras de pequenos desenvolvedores, mas elas tem um que de responsabilidade do sucesso de vários jogos indie.

    Claro, se chegar ao momento onde elas podem vir a criar mais espaço seria ótimo, mas no mundo, canibal, capitalista que nos vivemos fica muito difícil fazer algo do tipo. Mas agora que já chegamos nesse assunto, pq não fazer concursos, e premiar os melhores com ajuda de custo, com técnicas, com cursos e até mesmo com visitas a grandes empresas desenvolvedoras.Mas esse ponto não é só deles, tem que ter um movimento maior dos interessados em fazer um movimento maior, até mesmo criar grupos mais unidos para que possam ter mais força de reivindicar ajuda das grandes desenvolvedoras.

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