A velha discussão sobre videogames e arte

A velha discussão sobre videogames e arte

Faz mais de um ano que o crítico de cinema Roger Ebert meteu a colher nessa história. Ebert, numa coluna que escreveu para o site do jornal Chicago Sun-Times, disse com todas as letras:

Há mais ou menos um ano, eu escrevi grosseiramente que videogames não podiam ser arte. Isso inspirou uma tempestade entre os jogadores, que me escreveram incontáveis mensagens explicando porque eu estava errado, e falando que eu deveria jogar seus games favoritos. Eu realmente pedi por isso. Qualquer coisa pode ser arte. Mesmo uma lata de sopa Campbell. O que eu deveria ter dito é que videogames não podem ser belas artes, como eu entendo o conceito.

Nada de errado com isso. Como ele mesmo diz, você pode até gostar de Homem-aranha 3 (o filme), mas não dá pra considerar como uma grande obra de arte, como por exemplo Romeu e Julieta. Ele tem outros argumentos que são interessantes e eu até discordo de alguns deles. Afinal de contas, quem acompanha o Gamerview sabe que sou um defensor dos games independentes, e muitos deles são dignos de serem considerados como obras de arte.

No entanto, o objetivo deste artigo não é discordar de Ebert. É discordar de outros artigos, especialmente este. Seu autor, Tony Huynh, é um game designer do Day 1 Studios, tendo trabalhado recentemente no game Fracture (aquele que você modifica terrenos com uma arma especial). Seu principal argumento neste artigo é que a coisa que limita o potencial dos games é a sua incessante busca pela diversão. Enquanto as companhias cinematográficas estão dispostas a arriscar seu investimento em filmes artisticamente relevantes mas sem tanto público, as softhouses não têm tanto pudor em rechaçar qualquer projeto que não se auto-limite como “divertido”, para o público que for – e inclusive modificar certas decisões que podem ser arriscadas. Ele cita nominalmente Prince of Persia, com seu protagonista – um persa, dã – tendo sido modificado para ser um caucasiano de olhos azuis e com bronzeado de praia.

Ele inclusive cita Warren Spector: “Filmes, livros, músicas e outras formas de arte são – ou podem ser – divertidos de ver/ler/ouvir, mas não existe nada na definição ou julgamento das outras mídias que requeiram diversão. Nós somos a única mídia que diz para si mesma: ‘isso é o que você deve ser e o que sempre será’.

Ok, tenho que concordar que os executivos e seu medo a arriscar são o que está segurando a afirmação da mídia “videogame” como uma das belas artes. Afinal de contas, normalmente esse tipo de gente é uma praga mesmo…

Mas, por mais que eu admire o trabalho de Spector e reconheça os argumentos de Huyhn como válidos, chegou o momento de discordar. Sim, limitar-se a “divertir” é um problema para uma mídia que quer – e tem direito a – ser mais do que é. Mas a pergunta que faço é: por acaso uma obra de arte não pode ser divertida, não pode ser para as massas? É absolutamente indiscutível que o que os Beatles fizeram em Revolver, Sgt. Pepper’s e no álbum branco era arte (se disser que não, leva porrada!). Mas, apesar de serem artistas, eles eram antes de tudo “entertainers” – e esses três álbuns foram feitos para o consumo e diversão das massas, não para serem tocadas em uma sala de concerto para algumas dezenas de “connoisseurs”.

Além disso, ao contrário do que diz Huyhn, qual o problema em considerar algo como uma obra de arte simplesmente por seu valor estético? Uma obra de arte não necessariamente necessita ter uma “mensagem”. Rez, como game, é pouco mais do que um Space Harrier vetorizado, mas sua assumida inspiração em Kandinsky e na sinestesia fazem dele uma obra de arte sensual como poucas. Sensual no sentido de “estimulante dos sentidos”, seus pervertidos…

Resumindo: apesar das pressões dos executivos, sim dá pra fazer obras de arte no mainstream. Existem algumas que já aspiram a isso. No entanto, para que cheguemos a esse status, necessitamos de uns criadores que tenham um grande poder derivado de sua fama e que, graças a isso, consigam liberdade para retirar as amarras impostas pelos executivos.

O pior é que não parece que exista ninguém. O Hideo Kojima já tentou, mas se afogou na própria arrogância e achou que a mensagem bastava por si só porque, apesar dos Metal Gear Solids serem ótimos jogos, eles não conseguem alcançar tudo o que aspiram ser. Tipo um peso-pena iniciante que pensa que pode ganhar uma luta contra o campeão dos pesos-pesados. O Peter Molyneux sempre promete a “experiência definitiva”, mas nunca entrega. Shigeru Miyamoto, com seu poder quase absoluto sobre o que a Nintendo faz, poderia fazer isso, mas ele aparentemente já está satisfeito com o que fez (ou não é capaz de dar esse salto). Talvez algum novato mais ambicioso possa propor isso ao Miyamoto, mas duvido, a Nintendo é uma empresa japonesa, afinal de contas. O Will Wright não me parece capaz, e o Spector é muito low-profile para tanto. E os novos na área, tipo o Cliff Bleszinski e o Robert Jaffe, parecem mais satisfeitos em serem pop-stars e entregarem mais do mesmo do que em passarem ao próximo nível.

Os únicos que me parecem capaz de dar esse salto são Gabe Newell e o pessoal da Valve. Eles têm a independência necessária (graças ao Steam), o poder necessário (graças ao sucesso de Half-Life e “agregados”) e o tesão necessário (o fato de estarem conduzindo grupos de estudo de linguagem de sinais é uma prova mais do que suficiente). Só espero que não demorem tanto pra entregar isso, porque o Episódio 3 de Half-Life 2 já está demorando uma barbaridade…


Comentários

  1. Henrique Sampaio

    O problema é que empresas grandes precisam lucrar – afinal, essa é a função e a natureza delas: gerar lucro e movimentar dinheiro. O dinheiro sempre virá em primeiro plano, o que faz do game é um produto. O excelente REZ citado aí é uma dos poucos exemplos de pura arte digital desenvolvido por uma empresa (razoavelmente) grande – no caso, a UGA, que por sinal durou poucos anos. Shadow of the Colossus é outro que, creio, entra na mesma categoria. Curiosamente, esses jogos que se aproximam da “arte” se tornam cult e acabam ganhando um grande reconhecimento após alguns anos, pelo menos no meio em que se encontram, como foi o caso do Psychonauts ou do próprio Rez.

    A grande promessa do momento para os jogos-arte são os indies mesmo. Sem um orçamento gigante para pressionar os criadores e sem executivos que só pensam no retorno financeiro do “produto”, os criadores têm liberdade para explorar, experimentar e brincar com linguagem dos jogos. Por outro lado, o custo da melhor tecnologia geralmente impede a criação de jogos visualmente superiores.

  2. Daniel

    É uma questão muito profunda. Eu, como designer formado, já ouvi e ainda ouço muita ladainha sobre conceitos do que “é” ou “não é” arte. Alguns autores defendem a tese de que a arte, de fato, não pode ser caracterizada em sua criação e em seu desenvolvimento, mas sim, só depois da obra criada e devidamente digerida; Citam exemplos tais com DaVinci e seus croquis técnicos em busca de projetar máquinas inexistentes (hoje, arte; na época, apenas uma loucura de um viado).

    No que tange o conceito arte VS diversão, de fato, nada impede que arte seja divertido. Afinal, é outro conceito que gera polemica e confusão. Diversão? O que é diversão?

  3. Edu

    Falou tudo!!! Concordo sobre o que vc diz do Kojima, Molyneux…
    Gabe sabe lidar com criatividade em seus games. E eu tb não vejo a hora de jogar o Ep 3.

  4. Guilehrme Bova

    Ai vou comentar tb pq o Henrique comentou! Fez inveja!
    Eu penso que os games não são arte mesmo! Ponto final. Os princípios de arte são outros.

    Mas eu concordo que os games se apropriam de muitos artifícios artísticos, tem potencial de reinventar e inventar (por que não?) algumas linguagens novas e que de certa forma absorvem e refletem imagens da sociedade em que vivemos.

    E concordo mais ainda quando dizem que esse potencial está sendo cada vez menos explorado. E acho que culpar as produtoras ou distribuidoras pela “pressão nas vendas” é covardia. Um bom roteiro e estratégia de jogo é fácil de vender pra qualquer produtora/distribuidora. Acho que falta talento (e bolas!) mesmo. Tenho dito.

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